Ritalina: Necessidade ou moda?
Como a questão da ritalina é ainda actual, apesar de já se prever que será retirada do mercado, achei pertinente voltar a colocar em voga um artigo que escrevi já há algum tempo para o Jornal Diário do Minho, e que provoca ainda alguma polémica:
"A prescrição de medicamentos para tratamento da Perturbação da Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA) aumentou, em todo o mundo, 274%, entre 1993 e 2003. O número de países que começaram a recorrer a este tipo de drogas subiu de 31 para 55. Os dados foram publicados no jornal americano Health Affairs. Uma em cada 25 crianças e adolescentes norte-americanos está a ser medicamentada para PHDA.
Calcula-se que em Portugal entre seis e oito mil crianças e adolescentes estejam a tomar este tipo de medicação (números de 2006, com base nas vendas). Em 2004, estimava-se que três mil crianças tomassem medicamentos para PHDA, enquanto que em 2003 eram apenas 400” (Revista Pais & Filhos. Edição de Maio de 2007, p. 102).
A grande questão que se coloca é se existem actualmente mais crianças com PHDA do que antigamente.
Um destes dias, ao assistir a um programa televisivo, onde se discutia esta questão, deparei-me com a opinião da directora de uma associação de crianças hiperactivas. Qual não foi o meu espanto quando a dita directora, ao ser confrontada com uma criança com um comportamento agressivo e, em determinadas situações, anti-social, adiantou logo um diagnóstico, dizendo que a criança era, de facto, hiperactiva e que o seu “problema” se resolvia facilmente com a toma de um medicamento. É de salientar que este conselho foi dado, como referi, sem qualquer preocupação em saber se de facto era aquela a perturbação que a criança apresentava e não outra. Contudo, encontrava-se um especialista presente que refutou o seu conselho, dizendo que esse não seria o melhor caminho, pois não estávamos perante uma criança com PHDA. De facto, o que a criança tinha era a falta de uma fibra específica numa determinada zona do cérebro. A toma do medicamento iria impedir que essa fibra se viesse a formar.
Por este simples exemplo passado num programa televisivo, podemos avaliar o que se passa por este pais fora. Técnicos, especializados ou não, adiantam diagnósticos de ânimo leve. Realmente, para muitos, pais, agentes educativos, e pessoas que partilham a realidade circundante da criança com a perturbação, pode “dar jeito” ministrar-lhe o medicamento. Assim, a criança mantém-se dopada todo o dia não dando mais “problemas”. No entanto, este medicamento pode ser um empecilho ao crescimento das estruturas cerebrais da criança. Impedindo desta forma, e para sempre, que se torne um ser completamente social.
É importante, então, saber como se pode encontrar um diagnóstico preciso. Este só é possível, quando vários sintomas persistirem por mais de seis meses, em diferentes contextos: familiar, escolar e extra-escolar. Para evitar diagnósticos precipitados é, por vezes, necessário que a criança seja avaliada por uma equipa pluridisciplinar, constituída por pediatra, psiquiatra, psicólogo e técnico de educação especial. A informação fornecida pelos pais e pelos professores, mediante o preenchimento de um questionário relacionado com o comportamento da criança, é também fundamental para a realização de um diagnóstico correcto.
Tenha todos estes factores em conta e ajude a diminuir todos os “falsos diagnósticos” que, cada vez mais, se manifestam no nosso país.
Rafaela de Azevedo
(Públicado no Jornal DM a 31/01/2008)